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Pensei numa estrutura deste tipo para o primeiro workshop:

 

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Não é para me gabar, mas acho que levo jeito para isto. 

 

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publicado às 19:37

1910

por MC, em 05.10.16

 

Lavadeiras 1910.jpg

 Grupo de lavadeiras (foto daqui )

 

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publicado às 21:54

Women Ironing

por MC, em 28.09.16

women_ironing Degas.jpeg

 Degas, Women Ironing

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publicado às 22:37

A filha

por MC, em 22.09.16

Tenho uma filha pequenina, matreira e travessa como todas as outras. A minha filha é franzina e frágil, tem o rosto sulcado dos trilhos do tempo e os olhos pequeninos e fundos lançam fulgores de alegria ou contrariedade, na ligeireza em que se gasta um fósforo. A minha menina tem a pele toda enrugada, como se os anos a tivessem amarrotado, ao pousar nela, maciços e descuidados, o seu peso inexorável.

Enche-me de cuidados, esta minha filha. Às vezes, acredito que está sossegada na madorna quente do sofá e quando vou por ela, valhamedeus, não se acha em lado nenhum, o coração dispara-me como uma fisga. Procuro, espavorida, que é dela, que é dela, alvoroço a casa, incomodo a vizinhança, um desassossego. Às vezes, vejo-a por fim assomar ao fundo da rua, confiante e feliz, com um qualquer braçado de flores ou uma mão cheia de amoras. Amua, desconcertada, se lhe ralho por ter saído sem avisar. “Era o que faltava”, resmunga baixinho, com os lábio hirto quase a chegar ao nariz, “a pessoa agora não poder fazer a sua vida… era o que faltava…”, lá vai desfiando queixumes, até se esquecer da birra.

De vez em quando, vou dar com ela parada junto à sebe da escola, a cismar nas brincadeiras dos meninos. Outras vezes, encontro-a sentada num banco do parque, a discursar, desenvolta, para uma qualquer plateia que só ela vê. É sempre surpreendente, a imaginação da meninice. Ocasionalmente, nestes seus giros a despropósito, cai e magoa-se. Encontro-a choramingona, de joelhos esfolados e ombros a tremer. É escusada a zanga, em alturas assim. É dia de mansa repreensão, enquanto se desinfecta o dói-dói.

É caprichosa, esta minha filha. É costume agora torcer o nariz à alface, aos agriões, aos espinafres e aos brócolos. Que não, que lhe fazem mal, dão dores de barriga. Cai-lhe uma tristeza fiteira no olhar, os ombros descaem, os suspiros brotam como lágrimas. Ai, que já nada lhe sabe bem, queixa-se a minha filhinha. Dou com ela a horas impróprias, sentada na cozinha, a comer doçuras. Amiúde encontro a lata dos biscoitos estrategicamente entrincheirada entre as almofadas do sofá e sei, de fonte segura, que o pacote das gomas desaparecido há dias repousa agora, esventrado, na gaveta das meias de uma determinada pessoa.

Às vezes canta, a minha menina. Começa num cantarolar baixinho e frágil como ela própria. Depois, a voz enche-se-lhe de uma força que já teve e materializa-se nela a mulher que foi. E canta com viço e destemor, com o mesmo ímpeto com que outrora lidou de sol a sol, ergueu e escorou uma casa e uma família. Nessas alturas, dá gosto ouvi-la, a minha filha velhinha. Esses são os dias felizes. 

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publicado às 23:22

Andorinhas

por MC, em 14.09.16

Hoje voltaram as andorinhas. Oxalá continuem sempre a voltar. Oxalá continuem, com a sua imensa generosidade, a permitir-me viajar à boleia nas suas asas, ainda que por breves instantes, ao reino onde todas as coisas são possíveis.

 

voar 2.jpg

 

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publicado às 19:18

A selfie

por MC, em 30.08.16

Que me desculpem todos os orgulhosos detentores de selfies maravilhosas em praias paradisíacas e longínquas, à janela de hotéis de requinte em capitais europeias repletas de cultura e urbanidade, ou em spas borbulhantes de exclusivos resorts. Que me desculpem, repito, mas esta foi eleita - por votação unipessoal, que é o meu tipo de sufrágio preferido - a selfie oficial da silly season. Desarruma-me tanto a cabeça e o coração, esta selfie, de tão enternecedoramente silly que é.

 

selfie.jpg

 

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publicado às 22:12

Amor em tempo de Verão

por MC, em 21.07.16

amorzinho.jpg

 

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publicado às 22:42

Pokemon Go é para meninos

por MC, em 20.07.16

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 (foto de Roie Galitz, National Geographic)

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publicado às 00:01

Je suis concierge

por MC, em 13.07.16

 

A avenida refulge de calor e luz. Por todo o lado, pedaços vibrantes de vermelho e verde agitam-se num misto caótico de felicidade e impaciência. A menina Isabelinha põe a mão em pala sobre a testa transpirada e tenta vislumbrar o horizonte lá longe, onde a avenida desagua no largo, atenta a qualquer movimentação. Sente o suor morno a colar-se-lhe às costas, a empapar-lhe as coxas sob o vestido florido. Tenta ludibriar o cansaço de tantas horas de espera, repartindo o peso entre uma e outra perna e abana-se, indolente, com uma revista velha que trouxe do salão da Jaqueline.

O coraçãozinho dela, porém, não sente cansaço. Flutua numa nuvem de felicidade e arrebatamento que alastra a cada minuto, como que por osmose, num êxtase compartilhado pela multidão sorridente à sua volta.  Está tão feliz, a menina Isabelinha! Sente a alma tão consoladinha como se fora ela própria, com os seus pezinhos - agora entumescidos e lancinantemente pregueados pelas tirinhas das sandálias - a calcorrear os agrestes relvados gauleses, a marcar o precioso golo da vitória. “Somos campeões”, garganteia em coro com a multidão, à medida que o autocarro avança na avenida, abraçado pelo povaréu, o plural veemente a encher-lhes a boca e o espírito.  

Reconhece-se numa irmandade desvalida de empregadas de limpeza e de porteiras, de padeiros e de operários, apoucados e amesquinhados por terras da estranja, onde ela nunca esteve. Sente-se pertença de uma massa humana valorosa e tantas vezes derrotada, tão habituada que está a que as circunstâncias lhe sejam adversas, em todos os campos, seja qual for o jogo.  

Aplaude com entusiasmo e gratidão os heróis que afinfaram um retumbante e bordalliano “toma” mesmo nas fuças da soberba - de todas as soberbas; os valorosos paladinos que nos desencardiram (mesmo que por pouco tempo) a honra da portugalidade.

A revista amarfanhada que servira de leque resvala agora debaixo do braço no estrépito do aplauso. A menina Isabelinha descarta-a, indiferente, no caixote do lixo junto ao passeio. Deita-lhe um último olhar descuidado, mas um detalhe imprevisto captura a sua atenção: na capa vincada da revista velha, o capitão herói sorri, um sorriso branco de felicidade no rosto bronzeado, o corpo lustroso de sol e mar, o deleite do ócio partilhado com um grupo de amigos.

A menina Isabelinha lembrou-se logo de ter lido aquela entrevista. Recordou as insinuações maliciosas acerca da forma como escolhia viver a sua vida, das pessoas de que se fazia rodear. Recordou tantas outras entrevistas, reportagens e artigos, repletos de comentários depreciativos, de inúmeras ilações acerca do seu caracter e do seu profissionalismo, tantas vezes despropositadas, de alusões sarcásticas à família em geral, à pirosice das manas em particular, as larachas sobre as roupas e os carros e todos os luxos despropositados que afrontam o português comum.

A menina Isabelinha olhou para eles, os heróis nacionais, a acenar, felizes, em cima do autocarro. Lembrou-se de ter lido outro tanto de chalaças acerca de engenheiros inaptos, de pretos e de ciganos, de madraços macambúzios e incompetentes. As suas mãos diminuíram por instantes o ritmo frenético dos aplausos e uma restiazinha de vergonha toldou-lhe o rosto de rubor escarlate. Mas foi só mesmo um instante. Sacudiu os pensamentos incómodos como quem afasta os irritantes mosquitos da fruta e retomou os festejos. Chupez, franciús. São muito mais asseadinhas as batalhas, quando os inimigos são de fora.

 

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publicado às 14:54

Voar

por MC, em 10.07.16

futebol.jpg

 (Futebol na Rua, de Gérard Castello Lopes, 1958)

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publicado às 18:41


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

foto do autor


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